domingo, 10 de setembro de 2023

Uma Habitação para Viver e Comer


Esta é uma habitação que se pode comer. É uma casa que é também um restaurante. Na Natureza há casas e comida gratuitas para todos. E não é preciso "construir mais" plantas para os gafanhotos dormirem e se alimentarem ou até poderem irem estudar para uma universidade numa cidade longe de casa. Na Natureza está tudo em equilíbrio porque um gafanhoto não pode ter os recursos do que mais de metade de todos os gafanhotos do planeta. Na Natureza 1% dos gafanhotos não pode ter mais do que os restantes 99%. Infelizmente o mesmo não se passa com a nossa espécie, dita por muitos (e que eu tenho sérias dúvidas que assim seja) que é a espécie "inteligente"... (fotografia tirada nos últimos dias de agosto)

Bonsai Regressa dos Mortos


 Fiquei muito triste. A verdade é que não tenho andado muito em cima dos bonsais. Estão em casa dos meus pais e é mais a minha mãe que os vai regando. E chamou-me a atenção que este ulmeiro (Ulmus pavifolia) que me foi oferecido por uma namorada há 22 anos estava completamente seco. Foi um choque. 

Levei-o para minha casa e tentei um tratamento de choque. Enfiei-o dentro de uma cuba com água das tartarugas (muito rica) até deixar de borbulhar e deixei-o debaixo da laranjeira. 

Dias e dias completamente seco ali abandonado. Eu mesmo já lhe tinha feito a extrema-unção e entregado a alma ao criador. Já tinha pensado inclusive como aproveitar aquele tronco seco e fazer qualquer coisa com ele. 

Mas eis que, subitamente, regressa da morte e minúsculas novas folhas começam a brotar! É evidente que algumas partes morreram. Mas está vivo e neste momento é o que mais importa.


quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Suculentas em Flor: Stapelia

Ontem tinha-a fotografado porque o botão estava tão grande que quase parecia querer explodir.  

A minha mãe tinha comprado esta Stapelia há algumas semanas que acabou por desabrochar hoje, neste dia de fortes emoções...


sábado, 12 de agosto de 2023

Festival de Jardins de Ponte de Lima 2023 - Jardins Saudáveis

 
Mais um ano, mais uma visita ao Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima. Este ano o tema a concurso é Jardins Saudáveis. E são estes os jardins que estão a concurso até final de Outubro


1. Mens Sana in Corpore Sano (Portugal)

... Este jardim procura mostrar, não só, a importância dos jardins para a preservação e melhoria da saúde da população em geral, mas especialmente destacar o seu contributo em contexto hospitalar, em particular na prestação de cuidados de saúde mental, dando a conhecer o conceito de “Jardim Terapêutico”, concretizado num “Jardim Sensorial”. Aqui, as experiências ou atividades encontram-se distribuídas ao longo de um designado “circuito sensorial”, que procura de uma forma direcionada, ainda que não exclusiva, estimular os diferentes sentidos.





2. Equilíbrio Saudável (Alemanha, Áustria)

... Um lugar contemplativo que encoraja a reflexão. A saúde é fundamental para o nosso bem-estar. Aqui, o equilíbrio certo entre o stress e o relaxamento é importante. Este equilíbrio de saúde é ilustrado no Jardim Equilíbrio Saudável. O equilíbrio pode desempenhar um papel importante em muitas áreas diferentes. Quer seja a caminhar por caminhos estreitos, a empilhar pedras ou na saúde pessoal e na vida quotidiana. Manter tudo em equilíbrio é uma arte com a qual as pessoas têm lidado desde tempos imemoriais. No entanto, na natureza e na vida de cada ser humano, este equilíbrio perfeito é uma ilusão, um objetivo que nunca pode ser alcançado e uma tarefa que nunca termina. Ao entrar no jardim, o design calmo tem um efeito de desaceleração. Áreas redondas com diferentes pedras, água e gramíneas chamam a atenção do observador. Os diferentes materiais, superfícies e cores refletem diferentes situações e condições iniciais. Em coordenação uns com os outros, emerge um quadro coerente. A diversidade é reduzida ao essencial.









3. Bom Site (Espanha)

Considerando o tema da presente edição do Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima, JARDINS SAUDÁVEIS, foi projetado este jardim usando os princípios da GEOBIOLOGIA, ciência que estuda a relação entre os seres vivos e as radiações terrestres

O Planeta Terra está rodeado de uma série de redes magnéticas em que parte da energia é absorvida e outra parte devolvida à atmosfera, criando pontos onde estas radiações são mais intensas, uma rede invisível a olho nu, a que chamamos zonas geopatogénicas ou geopatias. Lugares alterados onde se detetam diferenças significativas de emissões de radiações energéticas e eletromagnéticas, sendo por isso zonas que podem chegar a afetar a saúde dos seres vivos.

Foi feito um estudo da parcela atribuída para a construção do jardim e representaram-se as principais alterações geofísicas produzidas por águas subterrâneas, falhas geológicas ou fissuras rochosas e algumas das alterações geomagnéticas formadas pela rede de Linhas Hartmann. Para isso, utilizou-se a RADIESTESIA como técnica de medição.




4. Os Nossos Jardins (Polónia)

A área inteira está dividida em 3 zonas: zona amarela, zona vermelha, zona azul. O visitante passa pelas zonas por essa ordem através dos arcos. Em cada zona, são plantadas diferentes plantas, respetivamente selecionadas por cor. Todas as áreas possuem postes com superfícies arredondadas e espelhadas, com frases: “és tão belo quanto este jardim”; “és tão belo quanto esta planta, árvore/flor, etc.”. Nos espelhos à saída, está escrito: “somos todos tão belos quanto estes jardins”; “somos todos tão belos quanto estas plantas, árvores, flores, etc.”









5. Jardim Terapêutico (Polónia)

O objetivo do projeto Jardim Terapêutico é fazer com que as pessoas lembrem a importância de cuidar da saúde mental, que muitas vezes é completamente negligenciada, uma vez que a palavra “saúde” está frequentemente associada apenas à nossa condição física. Todo o conceito do projeto é baseado na pirâmide das necessidades da saúde mental. Encorajamo-lo a entrar no jardim descalço, pois todo o caminho está revestido de pedra e relva. Isto serve para aproximar as pessoas da terapia mental natural. No jardim, existe um túnel dividido em 6 partes. Cada uma delas corresponde a um fragmento da pirâmide das necessidades da saúde mental. Passando por todo o túnel, o visitante experiência a terapia e aumenta o conhecimento sobre a terapia mental natural. Ao lado do túnel encontra-se uma mesa de madeira, sobre a qual estão plantados morangos. Os visitantes podem apreciá-los. A mesa é também um pequeno lembrete da importância de cuidar da saúde física do nosso corpo.






6. Soluções-Baseadas na Natureza para uma Vida Saudável (Portugal, China)


Esta proposta reflete um jardim que pretende contribuir para o bem-estar e saúde das pessoas, para além de proteger o ambiente, estando assente em “Soluções-Baseadas na Natureza”. Estas soluções são inspiradas e sustentadas pela natureza, trazendo benefícios ambientais, sociais e económicos, providenciando vários serviços ecossistémicos. Aumentam a capacidade da natureza para fornecer múltiplos bens e serviços, tais como: o ar limpo ou água potável. São desenvolvidas com conhecimento científico e tecnológico, e podem ser aplicadas nos edifícios, em áreas urbanas ou rurais, e à escala dos territórios, aumentando a sua resiliência às alterações climáticas e sendo multifuncionais...~





7. Pulmões Verdes (Alemanha, Áustria)

A utilização do conceito dos pulmões como elemento principal de conceção pode parecer um pouco óbvio nos nossos tempos pós-pandémicos, mas é certo que uma abordagem aparentemente simples transmite frequentemente uma mensagem igualmente clara e direta. Com o tema da pandemia e a nossa vida quotidiana desgastante, continuámos a encontrar diferentes pontos focais que nos ajudaram a apresentar uma variedade de ideias e conceitos para um jardim saudável. Um elemento recorrente no nosso processo de conceção foi a possibilidade de interagir com o que está a ser criado, uma característica fundamental da nossa abordagem. A procura de espaços exteriores calmantes e relaxantes é elevada, por isso criámos os pulmões verdes, para recordar e experienciar o valor da respiração consciente através de diferentes elementos de design.



8. O Futuro da Paisagem (Brasil)

À entrada do jardim, o visitante é recebido pela beleza do jasmim e acariciado pelas plumas do capim-zebra! Segue encantado com a floresta amazónica, representada pela exuberância das bananeiras e pelos verdes e púrpura da orelha-de-elefante.

No fim deste corredor, o visitante depara-se com a frescura do lago, que exibe espécies aquáticas do Amazonas e do Pantanal, como o lírio-branco e as cavalinhas, que adornam e mantêm as águas sempre limpas.

A pérgula é coroada com amoras e, próximo dela, encontramos um vaso com a árvore crista-de-galo.

O tapete de relva convida o visitante a sentar-se e a apreciar a paisagem da Mata Atlântica, que ainda lhe oferece a visão de um canteiro com belas estrelícias.

Em seguida vem a Caatinga, representada pela rusticidade e aspereza das suas espécies, fazendo lembrar que, embora exista vida no sertão seco e árido, é preciso cuidar da terra onde vivemos, para continuar a receber dela o mesmo carinho, que se recebe ao entrar no jardim.






9. Um Jardim Sensorial (Portugal)

O tema “Jardins Saudáveis” alude a aspetos positivos que a presença de espaços verdes tem na vida das pessoas, sem esquecer a própria saúde do espaço, vindo de uma sustentável e harmoniosa relação entre o visitante e a vegetação.

Num local onde é promovida a interação de todos os elementos, através da estimulação dos sentidos da visão, olfato, paladar e do tato, resulta não só uma experiência mais vantajosa para a saúde humana e do planeta, como também surgem oportunidades para sentir e até degustar neste jardim, sendo esse fator atribuído às diferentes variedades de frutas, vegetais e plantas aromáticas que se encontram no espaço, podendo o visitante partilhar a experiência de consumo direto da natureza...





11. Regresso às Origens (Portugal)

O “Regresso às Origens” remete-nos para o passado, mas é no futuro, que esta sua pequena caminhada se vai enquadrar!

No jardim “Regresso às Origens”, é possível caminhar e conhecer uma série de plantas comestíveis e chegar ao centro, onde encontrará o desporto à mesa. O seu percurso inicialmente em espiral, uma das geometrias mais antigas, remete para um movimento ancestral que representa, na sua essência, o movimento de todo o universo.

No momento em que vivemos, a população mundial ultrapassou os oito mil milhões de habitantes, a instabilidade bateu à porta de todos nós! É tempo de maximizar recursos. Acreditamos que o futuro está nas produções sustentáveis, aliadas a uma alimentação saudável com uma vida desportiva ativa. É de senso comum que bagas, frutos e vegetais, presentes neste jardim, são parte do caminho para uma alimentação mais saudável, menos dispendiosa energeticamente, uma vez que tratando-se de seres autotróficos, baixamos um nível trófico na nossa cadeia alimentar. Para além disso, todas estas plantas têm capacidades de fixação de carbono, contribuindo assim para a sua redução na atmosfera, tornando dessa forma também a vida de todos nós mais saudável. Adquirimos a capacidade de transformar o mundo que nos rodeia. Assim, convidamos todos a conhecer a decoração floral, com aproveitamento alimentar, sentindo os aromas das flores que podem passar do prato no chão para o prato na mesa.




12. Viva la Vida (Argentina, França)

Um jardim é terapêutico: reequilibra, reorienta, harmoniza e dá força!

Conhecendo os benefícios dos espaços verdes para a qualidade de vida e saúde do ser humano, “Viva La Vida” é um espaço para passear, descobrir e contemplar como se celebra a vida de diferentes maneiras.

Este projeto inspira-se nas Mandalas, elementos visuais equilibrantes, que simbolizam a harmonia e a unidade. Consideradas como representações gráficas do “interior” de uma pessoa, os desenhos e os seus significados variam: cada forma e cor utlizada tem um significado próprio. O amarelo é a cor da alegria e otimismo; o branco simboliza a pureza, a inocência, a simplicidade; o violeta é a cor do espiritual, simboliza misticismo, poder, romanticismo e sensualidade; o verde a esperança, o equilíbrio, a natureza, o crescimento, o rejuvenescimento e a estabilidade.

Como eixo central da composição, uma instalação em 360º com a “Árvore da vida”, que representa “o ciclo da vida”. É um símbolo de sabedoria, esperança e amor. Finalmente, as quatros estações convidam a descobrir as principais atividades e benefícios dos Jardins: divertimento, contemplação, relaxamento e sentimento de proteção/segurança.




A entrada no Festival de Jardins de Ponte de Lima tem, como sempre, o custo simbólico de 1€ e está patente até ao final de Outubro. 

Abraços Bem Apertados

 Uma semente de hera germinou junto ao lilás (Syringa vulgaris) e começou a trepar por ele acima muito lentamente. Aos poucos, quase sem nos apercebermos, vai tomando conta do arbusto. Foi por estes dias, quando podava uns uns grandes rebentos novos da hera mas também alguns ramitos do lilás que consegui ver o estrangulamento que a hera foi capaz de fazer na parte superior do arbusto. É impressionante! 


As heras não são parasitas no sentido de se alimentarem diretamente das plantas ou árvores que trepam, mas além de se aproveitarem da sua estrutura também não as beneficiam em nada e, há até casos, como este, em que me parece que é evidente que prejudica o arbusto. 


quinta-feira, 20 de julho de 2023

Terrorista Ambiental Semeador de Azevinhos

Sou um perigoso terrorista ambiental que regozija com os seus atos. Espalho sementes de azevinho aqui pela aldeia e, anos depois, fico mesmo contente quando os vejo a crescer mesmo por entre as terríveis invasoras... 

sábado, 8 de julho de 2023

A Orquestra Toca Enquanto Vamos Todos ao Fundo

Nos últimos dias e longe do foco mediático, muitas são muitas as notícias que vão todas no mesmo sentido, o da destruição da natureza e a autodestruição do ser humano. Selecionei estas três:



"Cerca de 4,1 milhões de hectares – o equivalente à superfície da Suíça – de florestas tropicais virgens foram destruídos, no ano passado, à velocidade de 11 campos de futebol por minuto, por incêndios, exploração de madeira, agricultura e mineração.

Os dados, publicados nesta terça-feira, são de um estudo conjunto do Instituto de Recursos Mundiais (World Resources Instituto) e da Universidade de Maryland, dos Estados Unidos e confrontam os dirigentes mundiais com o risco de fracasso no compromisso de travar a destruição das florestas até 2030. Mais de 96% das perdas devem-se a causas humanas.

Em causa estão as florestas tropicais até agora intocáveis, com o desaparecimento de milhões de hectares de ecossistemas mais ricos em biodiversidade e mais eficazes na retenção de carbono, ao mesmo tempo que inúmeras comunidades indígenas são expulsas em vários países pelas indústrias extrativas.


Uma atitude “vergonhosa”, a roçar o “negacionismo” climático levou, ontem, o Partido Popular Europeu (PPE, do qual fazem parte PSD e CDS-PP), juntamente com o Identidade e Democracia (extrema-direita) e parte do Renew Europe (liberais) a rejeitar as alterações à Lei do Restauro da Natureza, proposta pela Comissão Europeia (CE), que a enviou para o Parlamento Europeu, acabando na comissão de Ambiente, Saúde Pública e Segurança Alimentar.

Ouvida pelo DN, a deputada socialista Sara Cerdas – a única portuguesa efetiva na comissão – afirma: “[A posição do PPE] é vergonhosa. É uma grande deceção. Tínhamos aqui uma oportunidade de propor mais ambição à proposta original e, mesmo assim, o voto foi ao lado da extrema-direita, do negacionismo.” No texto original da lei, está prevista a adoção de medidas para recuperar, entre 20 a 30 por cento das zonas terrestres e marítimas da União Europeia (UE) até 2030. Além disso, é também colocado como objetivo recuperar todos os ecossistemas danificados até 2050.



"A temperatura média global atingiu um novo máximo em 3 de julho, a média mais alta desde que os registos começaram no século XIX e desde que o monitoramento por satélite começou na década de 1970.

sexta-feira, 9 de junho de 2023

Os Relvados São um Assunto Muito Sério nos USA

Texto de opinião publicado hoje no jornal The Washington Post, que achei extremamente interessante de analisar por vermos como a cultura estado-unidense, que era tão diferente da nossa, vai, quer-me parecer que, aos poucos e graças à globalização, vai ficando cada vez mais parecida com a nossa. Os Estados Unidos é país por excelência da individualidade e da competição, da solidão também (o país até decretou pandemia de solidão, grave problema de saúde pública)  e as pessoas não se falam, não se conhecem, não conhecem o vizinho do lado mas é interessante ver como, por um lado a feroz competição por ter um relvado bonito, sinal de status, por outro, como o simples ato de cortar a relva permite que as pessoas socializem um pouco, mesmo que não saibam o nome do vizinho. Relembrar também que por lá não se usam muros daí que seja possível ver o vizinho a cortar a relva e dê inclusive para ver o relvado da rua e meter conversa com o vizinho de quem nem se sabe sequer o nome. 


COMO COMECEI A ADORAR CORTAR A RELVA

"Recentemente um vizinho deu-me talvez o maior elogio que se pode encontrar no vocabulário do homem suburbano americano: “Uau, cara” – balançando a cabeça com as sobrancelhas levantadas e os olhos arregalados – “O teu relvado está espetacular. Está mesmo verde..." Interrompi-o com um sorriso. “Claramente mais verde do que um campo de golfe.”

Não há lugar para modéstia aqui. Eu e o meu vizinho Tom - ou será que se chama Bill? - somos os melhores amigos, por isso não controlamos o ego quando se trata de cuidar do relvado. É aquela época do ano em que os dias são preenchidos com o zumbido dos cortadores de relva e o cheiro da relva acabada de cortar. Aprendi a amar essa combinação de verão quando adolescente, esticado atrás de um corta relva que cuspia aparas para fora ao passar. O que começou como uma tarefa árdua tornou-se a porta para a liberdade: se eu acordasse cedo, cortasse a relva e a juntasse sem que ninguém pedisse, sabia que poderia sair com meus amigos naquela noite e talvez usar o carro.

Ao longo do tempo, descobri o orgulho de o fazer. As minhas linhas de corte tinham que ser perfeitamente retas, deixando para trás um padrão listrado no relvado que causava inveja na vizinhança. Mesmo agora, com quase 50 anos, ainda gosto de cortar a relva. Num mundo de teclados, videoconferência e luz artificial, cortar a relva é onde consigo comunicar-me com a natureza e sujar as mãos, suar, fazer algum trabalho “real”. Às vezes é difícil ver a diferença que fazemos no mundo, mas o cuidar do relvado dá-nos um retorno imediato, como costuma acontecer em trabalhos que exigem que tomemos banho depois do trabalho, e não antes.

E o “estar ao ar livre” tem uma importância social: anuncia a nossa presença, marca o nosso lugar. Não é exagero dizer que cerca de 98% do que sei sobre meus vizinhos soube-o enquanto cortava a relva. Por exemplo, eu conheço o meu bom amigo Bill - não, espera, o nome dele é Tom. John? - teve umas férias espetaculares no oeste há alguns anos atrás. Recebo informações sobre os seus filhos adultos e conheço as suas equipas de futebol universitário favoritas. Trocamos histórias sobre como crescemos. A verdade é que eu não saberia nada dele se não cortasse a relva.

Outro vizinho que mora atrás de nós parou o carro para falar com ele enquanto eu atravessava o jardim outro dia. Vi-o apenas um punhado de vezes. Ele passa uma vez por ano depois que a temporada de corte do relvado está bem avançada. Na primeira vez, trocamos gentilezas e então ele apontou para o meu jardim com uma mão, como fazem os sulistas mais velhos, e disse: “Eu vi-o aqui indo e voltando, indo e voltando. Se quiser, eu conheço um sujeito...” E então ele interrompeu-se, olhou a matrícula HBCU do meu carro e a moldura da fraternidade à volta, e disse na língua materna: “Olhe, o meu filho poderia cuidar disto tudo.” Eu disse-lhe que o relvado é o meu pequeno santuário e ele entendeu. Antes de retornarmos ao mundo dos subúrbios americanos, ele olhou-me nos olhos e disse: “Tudo bem. Só queria que soubesse que estamos aqui". Eu entendi.

O almirante reformado William H. Mcraven fez um discurso de formatura que foi tão popular que o transformou num livro best-seller. Mudar o mundo, argumentou ele, começa com um simples ato. “Se fizeres a tua cama todas as manhãs”, disse ele, “terás realizado a primeira tarefa do dia. Isso dar-te-à um pequeno sentimento de orgulho e o encorajará a fazer outra tarefa e outra e outra.” Cortar a relva é como fazer a cama em público. Há orgulho na tarefa, sabendo que é a primeira coisa que as pessoas verão. É uma afirmação pública da capacidade de administrar e cuidar de uma casa - propriedade que é o maior investimento individual da maioria das pessoas e, portanto, o Santo Graal do Sonho Americano. “Um homem”, como diria meu avô, “precisa de um pouco de terra para andar.” E, assim como as camas são inspecionadas nas forças armadas, o estado do relvado é avaliado por quem passa. Um relvado totalmente coberto de ervas daninhas e severamente negligenciado faz as pessoas interrogarem-se: “Quem é esta gente? O que aconteceu ali? Um jardim ostensivo e obsessivamente bem cuidado produz uma reação sutilmente diferente: “O que está a acontecer ali? Quem é que eles pensam que são?"

A escritora Caitlin Flanagan observou: “Em Minnesota, um passeio limpo é uma necessidade no inverno e um sinal inconfundível para a comunidade: estamos bem nesta casa”.

O meu pai cresceu em Jim Crow, Carolina do Sul, e para ele (como tal, para mim), um belo relvado é uma marca de sucesso, tal como uma afirmação implícita num bairro predominantemente branco: Estamos bem nesta casa. . . e tu estás seguro na tua. Nos subúrbios americanos, cuidar do relvado é tanto um símbolo quanto uma performance.

Ouvi em algum lugar que as pessoas da classe média pagam por coisas que costumavam fazer pessoalmente e pessoalmente fazem coisas pelas quais costumavam pagar. Por exemplo, acho que as pessoas costumavam pagar agentes de viagens para reservar viagens e cortar a relva. Agora pagam alguém para cortar a relva e agendar viagens. Contratar pessoas para fazer coisas em sua casa que você não quer fazer é um luxo. E “conhecer um sujeito” é seu próprio marcador social, um atributo da classe trabalhadora que é uma versão mais pessoal e confiável do Linkedin. Ainda assim, quanto mais a nossa sociedade monetiza todos os aspectos da vida, incluindo os assentos vazios nos nossos carros e as camas vazias das nossas casas, mais necessário é empreender o trabalho pelo prazer e dignidade do próprio trabalho. A nossa única relação com o trabalho não pode ser a engrenagem de uma máquina financeira. O trabalho pode fornecer propósito, pequeno ou grande, separado do dólar.

À medida que envelheço, as alergias aos pólens da relva podem tornar o rescaldo de uma tarde em comunhão com o relvado um pouco difícil. Mas vai demorar mais do que isso para me perseguir dentro de casa. Eu sentiria falta do meu melhor amigo Tom. Espera, acho que é Will!