terça-feira, 26 de maio de 2026

50% da Vida na Terra Vive na Copa das Árvores

 Entrevista de Ima Sanchís à bióloga Meg Lowman, publicada no jornal espanhol La Vanguardia de 26 de Maio de 2026:

"63 anos. Nasci em Nova Iorque e vivo na Florida. Sou divorciada e tenho companheiro: ele ensina-me golfe e eu ensino-o a subir às árvores. Tenho dois filhos. Dirijo a Tree Foundation. As árvores dão-nos a vida e, durante a minha vida, 50% das árvores das florestas foram abatidas. Sinto uma ligação espiritual com as árvores.


Como é que lhe ocorreu subir à copa das árvores?

Todos os que estudavam as florestas eram homens e só viam as copas quando as árvores eram abatidas. Olhavam à altura dos olhos.

A senhora olhou para cima.

Decidi subir. Concebi um arnês e pedi emprestadas umas cordas de escalada para não danificar a árvore. Tinha muito medo.

Mas subiu.

E fiquei maravilhada. Estava cheio de criaturas a mastigar, a polinizar, a voar...

Leve-nos consigo.

Lá em cima convivem pássaros com os seus ninhos, milhões de insetos de todas as cores imagináveis, morcegos, coalas, macacos, leopardos, preguiças... Cada árvore alberga uma comunidade diferente.

A senhora chama-lhe o oitavo continente.
Sim, é outro mundo. 50% da vida na Terra vive na copa das árvores.

E quis tornar esse mundo acessível.

Trabalhava num projeto de ecoturismo na Austrália e tinha dois filhos pequenos que não podiam subir com cordas, por isso construí uma passagem suspensa entre as copas.

Foi um sucesso?

Sim. Aquela passagem foi o princípio. Agora, através da Mission Green, ajudamos a construir passagens por todo o mundo que protegem as florestas e permitem estudá-las.

Então vão encher-se de turistas.

Sim, mas isso dá trabalho e dinheiro às populações locais. Já não precisam de abater as suas florestas e os cientistas podem conhecer e proteger um mundo que antes era inacessível.

A senhora é uma cientista de campo.

Casei na Austrália com um agricultor e a família dele via com maus olhos que eu trabalhasse. Foi muito duro tornar-me dona de casa: divorciei-me e regressei aos Estados Unidos.

Como conciliou maternidade e trabalho?

Fui uma mãe solteira feliz. Quando eram pequenos, os meus filhos acompanhavam-me muitas vezes nas minhas expedições. Eu era a única mulher e, ao princípio, alguns cientistas olhavam para mim de lado. Depois confessavam-me que tinham inveja de não poder levar os seus filhos.

Não lhe facilitaram a vida.

Pagavam-me menos, davam-me a pior rede e eu tinha de trabalhar mais do que os homens para provar que merecia estar ali. Estavam sempre a pôr-me à prova.

Como se portavam os seus filhos?

Eram eles que descobriam mais bichos diferentes. No Belize vivíamos numa cabana, e por cima das camas dos meus filhos havia doze tarântulas. Eles adoravam!

E a senhora?

Noutras ocasiões, os outros cientistas já me fizeram dormir na rede sobre a qual havia um ninho de aranhas venenosas.

Encantadores.

O que eles não sabiam é que os meus filhos e eu tínhamos uma tarântula como animal de estimação: a Harryet.

E era carinhosa?

Interagíamos com ela. São venenosas, mas ela não se sentia ameaçada por nós. Viveu oito anos.

Custou-lhe ser aceite.

Quando uma mulher faz algo melhor do que um homem, alguns sentem-se ameaçados. Por isso escrevi as minhas memórias, sobretudo para que as mulheres pudessem aprender com a minha experiência.

Nem tudo foi bonito.

Durante a minha vida, metade das florestas do mundo foram abatidas.

Há quem diga: plantem outras.

Não é a mesma coisa. As árvores mais antigas sustentam mundos inteiros ainda por descobrir.

As florestas primárias.

Sim, e o que faço com mais sucesso é com crianças. Ponho-as a subir a uma árvore e depois elas contam aos pais essa maravilha e educam-nos no respeito. Falo com um milhão de crianças por ano, faço programas de televisão e livros para chegar até elas. Essa é a minha arma secreta.

O que a emociona a cem metros de altura?

Ver que inseto come as folhas, que pássaro come que inseto..., ver tanta vida.

É como ser detetive.

Sim, sou a detetive das folhas. Lá em cima tudo está ligado. Na Índia trabalho com tigres porque eles estão ligados às copas das árvores. Tudo é um ecossistema. Os tigres sobem às copas e deitam-se nos ramos a comer o seu veado, que come as árvores, mantendo o ecossistema equilibrado.

Dormia na copa das árvores?

Sim, mas durante anos procurei insetos durante o dia e não os encontrava. Uma noite, como não conseguia dormir, ouvi o som dos insetos a mastigar e percebi que comem de noite para se protegerem dos pássaros.

O que a fez chorar?

Pensar que esse mundo desaparece demasiado depressa sem que o tenhamos conhecido.

Que ideia a sustenta?

Quero que cada dia conte. A minha ferramenta fundamental é a alegria e a tenacidade.

Não há tristezas lá em cima?

Lá em cima vê-se claramente que a morte faz parte da vida, que fazemos parte de um ciclo.

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