Reportagem do jornal britânico The Guardian sobre a morte do carvalho com cerca de mil ano que na lenda abrigou o Robin dos Bosques na Floresta de Sherwood.
"Todos os anos, até 350 mil pessoas vinham admirar o carvalho Major, com a sua impressionante circunferência de 11 metros e uma copa que se estendia por 28 metros. Mas ontem realizou-se um funeral improvisado junto da árvore, depois de Sociedade Real para a Proteção das Aves anunciar a sua morte.
Pensa-se que o aumento das temperaturas - e a admiração humana - tenham acelerado o seu fim natural. Este ano não produziu quaisquer folhas, depois de ter sido enfraquecido por uma sucessão de verões quentes e secos.
Robert Brackley, educador de atividades ao ar livre que mostrou as maravilhas do carvalho Major a milhares de crianças, vestido com um traje completo de Robin Hood, afirmou:
«As histórias que nos deu são o seu legado. É a árvore mais famosa do mundo. A lenda viverá para sempre.»
Visitantes vindos de Espanha, Sheffield, dos Estados Unidos, da Coreia do Sul e da Austrália pararam junto da árvore para lhe prestar homenagem.
«É gigantesca!», disse Carter Jackson, de oito anos, de Sheffield. «É uma árvore realmente bonita e é triste que tenha morrido.»
Ryan Jackson, pai de Carter, comentou:
«É um pedaço de história que está a desaparecer, mas tinha 1.000 anos. Não se pode viver para sempre.»
«Pobre árvore», disse Kirsty Champion, de Adelaide, na Austrália. «Via sempre o Robin Hood na televisão e lia os livros. É muito triste que tenhamos tentado ajudá-la e conservá-la, mas provavelmente acabámos por piorar a situação.»
A Inglaterra possui uma riqueza única de carvalhos muito grandes e antigos: existem 114 com uma circunferência superior a 9 metros. Todo o resto da Europa, incluindo a Escócia e o País de Gales, reúne apenas 98 exemplares. Os conservacionistas descrevem-nos como «os rinocerontes-brancos do Reino Unido».
A árvore recebeu o seu nome do major Hayman Rooke, historiador local que escreveu uma descrição dela em 1790.
Na década de 1970 foi colocada uma barreira em redor do carvalho, que se encontrava enfraquecido pela degradação do solo, causada em parte pelo peso dos pés dos visitantes.
As intervenções bem-intencionadas também não ajudaram. Em 1904, foram instalados escoras e correntes metálicas para sustentar os seus ramos. Nos anos 1960, as partes ocas da árvore foram preenchidas com betão para reforço estrutural, enquanto alguns ramos foram revestidos primeiro com chumbo, depois com fibra de vidro e até tratados com tinta retardadora de fogo.
Os especialistas acreditam que as escoras foram um grande erro. Quando deixados ao seu destino natural, os carvalhos antigos perdem gradualmente os ramos e «crescem para baixo», retraindo-se para o tronco e necessitando assim de menos água e nutrientes à medida que envelhecem.
A RSPB assumiu a gestão do local em 2018 e descobriu que o enorme tronco do carvalho estava a secar, porque a água era absorvida pelos ramos exteriores artificialmente sustentados.
Segundo Chloe Ryder, gestora de operações da propriedade da RSPB na Floresta de Sherwood, as escoras:
«Provavelmente afetaram a sua capacidade de se sustentar por si própria.»
No entanto, a árvore teria colapsado se estas tivessem sido removidas.
Ryder, que visitava a árvore desde criança, declarou:
«É devastador. Estou genuinamente arrasada por isto ter acontecido durante a minha vida, quanto mais durante o período em que sou responsável pelo local.
Quase temia vir vê-la e receber essa confirmação, e constatar que não tinha folhas. Ainda assim, continuo a achar que é uma das árvores mais belas. Chamamos-lhe um museu vivo porque tem tanto para nos ensinar, tanto sobre o que foi bem feito como sobre o que foi mal feito.»
Embora esteja sem folhas e sem vida, o carvalho permanecerá de pé, porque a sua madeira morta é quase tão valiosa para a vida selvagem como uma árvore viva.
Um quarto de todas as espécies florestais depende da madeira morta em alguma fase do seu ciclo de vida.
Ed Pyne, conselheiro sénior de conservação do Woodland Trust, afirmou:
«Continua a ter um valor de habitat totalmente insubstituível. Continua a ser uma das maiores árvores da Europa e continua a desempenhar um papel muito importante para o ecossistema.»
Embora tudo tenha sido feito para salvar o carvalho Major, Pyne alertou que outras árvores antigas estão a desaparecer sem que ninguém se aperceba.
Apelando à ação do governo, declarou:
«Perdemos uma árvore como esta todos os anos. Não possuem qualquer proteção legal específica e estamos a perdê-las porque não lhes damos o valor adequado.»
O artigo original pode ser lido aqui.
