Artigo de Aline Flor, publicado no Público de 27 de Agosto sobre mitos ambientais.
"Com as temperaturas de Verão a subir e as ondas de calor a tornarem-se mais frequentes, multiplicam-se as sugestões para tornar as casas mais frescas sem recorrer ao ar condicionado. Entre elas, surge a ideia de que basta encher a casa de plantas para sentir alívio térmico. Mas será mesmo assim? A resposta exige algumas distinções, incluindo entre plantas de interior e soluções de vegetação no exterior dos edifícios. A principal vantagem, contudo, estará mesmo na sensação de conforto.
Sara Campos, da equipa de Comunicação da Quercus e coordenadora do programa Minuto Verde, explica que os benefícios das plantas de interior estão bem documentados ao nível da qualidade do ar e da humidade, mas não tanto ao nível da temperatura.
“Em relação à melhoria da qualidade do ar interior, sem dúvida, aí há vários estudos”, afirma, sublinhando que as plantas “libertam vapor de água e, portanto, logo aí criam humidade”, o que pode ser útil sobretudo em espaços com ar condicionado, que tende a secar o ambiente. Falamos aqui de plantas como a espada-de-são-jorge (Sansevieria), costela-de-adão (Monstera deliciosa) ou samambaias.
Já quanto à redução efectiva da temperatura, a responsável admite que a evidência é escassa. “Há um estudo que menciona que, de facto, plantas interiores podem reduzir a sensação - não uma redução efectiva da temperatura, mas a sensação de conforto térmico - menos 2ºc”, refere, acrescentando de imediato uma ressalva importante: esse resultado “tinha de ser uma instalação algo robusta”, ou seja, não se aplica a um vaso isolado numa sala.
Islene Façanha, da associação ambientalista Zero, concorda que a expectativa de que uma ou duas plantas mudem a temperatura de uma casa não tem sustentação, mas traz mais contexto. As plantas “por si só não substituem medidas como o sombreamento das janelas”, como estores ou persianas, devendo antes ser encaradas como parte de “um conjunto de soluções”. Reforça ainda que “também contribuem para a qualidade do ar e para o isolamento de fachadas”.
Se dentro de casa o impacto das plantas na temperatura é limitado, o cenário muda quando se olha para o exterior dos edifícios.
“Se pensarmos em plantas exteriores que possam fazer sombreamento pelo exterior dos envidraçados, aí, sem dúvida, reduzem imenso”, afirma Sara Campos, referindo-se a coberturas verdes e fachadas verdes que impedem a radiação solar de aquecer paredes e vidros. A responsável da Quercus aponta ainda comparações urbanas já realizadas entre ruas com e sem arborização: “Há mesmo evidências que comprovam a redução da temperatura no próprio solo, no asfalto, a diferença é incrível.”
Também Islene Façanha destaca a importância de haver vegetação dentro e fora dos edifícios, associando-a à criação de “refúgios climáticos” e à “protecção das ondas de calor e sombreamento natural das habitações” - um ponto que, segundo alerta, é frequentemente subestimado, apesar de as ondas de calor serem “a causa de morte relacionada com fenómenos climáticos com maior mortalidade na Europa”.
As plantas, mesmo as mais eficazes, não dispensam um bom isolamento do edifício. “O ideal é a pessoa apostar em bons materiais de isolamento térmico”, sublinha Sara Campos, admitindo que em edifícios antigos “não há plantas que nos safem”.
Islene Façanha reforça essa ideia ao questionar se o ar condicionado é a única resposta eficaz ao calor. Para a Zero, “existe um conjunto de soluções complementares e mais acessíveis: sombreamento, ventilação natural, isolamento térmico do edifício, plantas no exterior, cores claras em fachadas e planeamento urbano com mais zonas verdes e sombra.”
A ideia de que basta ter plantas em casa para sentir a temperatura descer tende a ser, portanto, um mito. Dentro de portas, o efeito é sobretudo indirecto, com melhoria da qualidade do ar e da humidade, e a redução de temperatura propriamente dita carece de estudos robustos.
Já no exterior, coberturas e fachadas verdes, ou simplesmente árvores junto às janelas, têm um impacto comprovado na redução da radiação solar e da temperatura envolvente. O consenso é que as plantas fazem parte de uma estratégia mais ampla, que deve incluir sombreamento, ventilação natural e, sobretudo, um bom isolamento térmico do edifício.