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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Quais as Consequências das Altas Temperaturas no Inverno nas Plantas?

Neste momento em que escrevo estamos no fim do mês de janeiro e eu posso dizer que neste inverno ainda não vi geada. Neste última semana de pleno inverno, chegamos ao cúmulo de termos em Portugal temperaturas acima dos 20ºC, mais ou menos as mesmas temperaturas que fazia no Rio de Janeiro que está no pico do verão. E lembrar que, por exemplo, o sul de Espanha teve, no final do ano, temperaturas a rondar os 30º e era ver os espanhóis, em altura do Natal, a correr para as praias. 

Ainda que muitos, muitas vezes motivados por questões ideológicas, o neguem, a verdade é que o clima está a mudar, e muito rapidamente e lembrar também a questão da falta de água que já se coloca, tanto em Espanha, como no Algarve. 

E quais as consequências destas mudanças radicais no clima para as plantas? É isso que podemos ficar a saber neste artigo do El País, publicado hoje.


"As altas temperaturas alteram os ritmos de muitas plantas, que, face a outonos e invernos amenos, florescem mais cedo e até podem fazê-lo duas vezes. Este janeiro, Javier Cano, chefe do instituto meteorológico de Getafe da Aemet, deparou-se pela primeira vez, em 44 anos de observações ininterruptas na Comunidade de Madrid, com algum exemplar de amendoeira ainda em flor e com folhas verdes da temporada passada, que deveriam ter desaparecido no final do outono ou início do inverno. "É uma anomalia que nunca tinha visto e pode dever-se à escassez de geadas, necessárias para que a árvore se desfaça dessas folhas", explica. Além disso, as primeiras flores surgiram 16 dias antes de 7 de fevereiro, a data média de início da floração, tomando como referência as últimas três décadas.

Os dados de Cano confirmam que este adiantamento nas amendoeiras do sul e centro de Madrid, uma das espécies que floresce mais cedo, tornou-se uma tendência: em quatro décadas, as pétalas aparecem cinco dias antes. As alterações na floração são detetadas há anos em diferentes espécies.

A Catalunha é um exemplo claro. As temperaturas de setembro e outubro do ano passado, muito mais quentes do que o habitual, transformaram o outono numa segunda primavera, indica o Centro público de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF). As plantas decidiram regressar ao traje primaveril: a vinha do Penedès e o Garraf rebrotaram, a queda das folhas das árvores caducifólias atrasou-se e várias plantas selvagens e árvores frutíferas floresceram pela segunda vez, desde as Terres de l'Ebre até à Catalunha Norte.

Em 2022, a voragem foi semelhante e as roseiras de montanha das zonas interiores da Catalunha floresceram quatro ou cinco meses antes do habitual, um facto inédito, que foi registado por voluntários do observatório RitmeNatura, uma iniciativa de ciência cidadã gerida pelo CREAF e pelo Servei Meteorològic de Catalunya. "Mesmo", destaca o CREAF, "chegaram a produzir fruto pela segunda e até terceira vez, árvores como a pereira ou a cerejeira". Ainda não foram estudados os efeitos do atual episódio de calor em Espanha, onde foram batidos 68 recordes de temperaturas.

Não são anomalias inócuas, adverte Ester Prat, coordenadora do RitmeNatura. "Embora as segundas florações sejam mais discretas, a planta precisa de água e pode representar a despesa de recursos que necessitará na primavera", adverte. Também pode acontecer que as flores se abram antes de aparecerem os insetos, "o que afetaria a produção de frutos pela falta de polinização, em última análise, a sobrevivência da espécie", acrescenta Joan Pino, diretor do CREAF. E o perigo das temidas geadas tardias acentua-se, pois podem causar danos maiores do que em décadas anteriores, quando as plantas sofriam, mas não com tanta intensidade por não acordarem antes do tempo do seu retiro invernal.

Andrés Bravo, investigador do Museu Nacional de Ciências Naturais, dependente do Conselho Superior de Investigação Científica (CSIC), destaca a necessidade de investigar em profundidade os efeitos das altas temperaturas invernais, às quais não tem sido dada tanta atenção quanto às temperaturas de verão por serem menos comuns. "Estas perturbações respondem a fatores globais e devem ser analisadas em conjunto", comenta.

Crescimento

Ele exemplifica com a afetação ao crescimento de uma árvore. "Se não chover no inverno nem na primavera e a temperatura estiver acima do normal, pode ocorrer um colapso no seu crescimento e, muito provavelmente, aumentará a mortalidade", acredita Bravo. É uma combinação de calor e falta de precipitação; "se isso acontecer, é catastrófico para o seu desenvolvimento e, se a isso se acrescentar uma geada tardia, o problema amplifica-se".

Bravo acrescenta que é o momento de "considerar uma gestão das florestas que permita reduzir a competição por água com espécies mais bem adaptadas quando são realizadas repovoamentos". Porque esses períodos de calor no inverno serão cada vez mais frequentes, e são episódios que evidenciam o problema. "São muito chamativos; as pessoas percebem mais que algo está errado se no inverno houver temperaturas altas, porque se estivesse frio, mas não chovesse, a perceção não seria a mesma", sugere.

A situação gera grande preocupação nas explorações agrícolas. O grupo de pesquisa do Centro de Investigaciones Científicas y Tecnológicas de Extremadura trabalha na biologia reprodutiva e nas necessidades de frio das árvores frutíferas. María Engracia Guerrero, membro da equipa, explica que estão a desenvolver "vários projetos, porque os invernos são um pouco mais amenos e árvores que floresciam perfeitamente há 20 anos agora têm problemas, pois cada espécie precisa de alguns dias de frio que agora não tem, e algumas flores não dão fruto", detalha.

Quando as folhas das árvores frutíferas caem, a árvore entra em repouso e acumula reservas, ao mesmo tempo que o botão se forma, algo impercetível do exterior. Para isso, precisam de algumas horas de frio e, em seguida, calor, e quando esse ciclo se completa, revivem e florescem. No entanto, atualmente, "o calor é fácil de alcançar, mas o frio não".

Os investigadores fazem projeções para o futuro, a 50 e 80 anos, estudam os genes relacionados com essa necessidade de temperaturas baixas e as variedades que são geneticamente compatíveis. "Em algumas, como a cerejeira, sabemos qual é o gene", esclarece. O objetivo é que os agricultores saibam que variedade devem escolher. Existem algumas, como o ameixeira japonesa, que foram cultivadas tradicionalmente e "que não poderão ser plantadas daqui a 50 anos se não forem substituídas por uma variedade que precise de acumular menos frio para florescer adequadamente".

Um dos futuros mais sombrios paira sobre as plantas de alta montanha, afirma Pablo Vargas, investigador do Jardim Botânico de Madrid (CSIC). "São os melhores bioindicadores das mudanças climáticas, especialmente as das cimas mediterrâneas que já se encontram muito mal", sustenta. A fuga mais rápida para uma planta, que não tem tempo para evoluir e adaptar-se às novas condições, é migrar para áreas de clima semelhante. No entanto, não têm tarefa fácil, pois os habitats adequados diminuem, não há mais espaço para subir. Isso acontece, por exemplo, em Sierra Nevada (Granada), com a espuela (Linaria glacialis) e a amapola de Sierra Nevada (Papaver lapeyrousianum). "A outra opção de uma planta assediada é resistir, pôr em prática a sua capacidade de resistência, como acontece com a azinheira ou o azevinho (azeitona silvestre), mas isso depende não apenas da espécie em questão, mas dos indivíduos", esclarece.

"Este calor inusual desorienta a las plantas" | Esther Sánchez | El País (29 de janeiro de 2024)

sábado, 30 de dezembro de 2023

O Ar da Europa É o Mais Seco dos Últimos 400 Anos

 Um estudo dos anéis das árvores mostra a seca atmosférica. Artigo publicado no jornal La Vanguardia de 28 de Dezembro de 2023:



"Em Espanha, reinava Filipe III, o Piedoso, e, do ponto de vista climático, uma Pequena Idade do Gelo que até congelou o Tejo dominava a Europa. Desde então, no início do século XVII, o ar não tem sido tão seco como agora, e desta vez não é devido ao frio, mas sim ao aumento das temperaturas. Esta é a principal conclusão de cerca de cinquenta cientistas que identificaram a anomalia nos anéis de árvores por toda a Europa. Nos últimos 30 anos, a aridez nos céus europeus tem sido maior do que nos últimos 400. A seca atmosférica une-se à provocada pela falta de chuva e à secura do solo. Este cocktail pode estar na origem dos incêndios dos últimos verões e das más colheitas no sul do continente.

Uma rede de 67 cientistas participou numa investigação liderada por dendroclimatólogos do Instituto Federal Suíço de Investigação sobre Florestas, Neve e Paisagem, WSL. A dendroclimatologia estuda o clima nas árvores. A cada primavera, elas crescem, manifestando-se num alargamento anelar do tronco. A espessura de cada anel depende do sucesso da árvore nesse ano, da disponibilidade de água, sol, nutrientes, entre outros fatores. A celulose desta madeira é composta por átomos de carbono, hidrogénio e oxigénio. Com as variações deste último, a investigadora do WSL, Kerstin Treydte, e seus colegas conseguiram determinar a humidade presente no ar há 10, 100 e até 400 anos.

Esta análise detalhada das variações na espessura dos anéis de árvores permitiu aos cientistas reconstruir a humidade atmosférica ao longo de períodos significativos, como 10, 100 e até 400 anos atrás. O resultado surpreendente é que, desde o início do século XVII, não houve um período tão seco quanto o que estamos a viver agora, e esta condição não é causada pelo frio, mas sim pelo aumento das temperaturas.

Essa rede de 67 cientistas fornece uma visão valiosa sobre as condições climáticas passadas e destaca as mudanças significativas que ocorreram no ambiente europeu. O estudo baseado na dendroclimatologia destaca a importância de compreender a história climática para avaliar os desafios atuais e antecipar possíveis impactos futuros.

Estes novos dados vêm complicar o cenário de seca. A principal causa é a meteorológica, decorrente da falta de precipitação. Com ela, a consequência mais imediata é a seca agrícola, seguida pela hidrológica, que envolve a escassez de água em reservatórios naturais ou construídos pelo ser humano. Até agora, esta última afetava principalmente os países do sul, especialmente a Espanha. No entanto, o défice hídrico também estava a ocorrer no ar em grandes áreas do resto da Europa ocidental, central e oriental. Agora, graças à informação sobre o Défice de Pressão de Vapor (VPD, na sigla em inglês), a gravidade e a extensão da seca atmosférica em todo o continente foram quantificadas. Desde o extremo norte até ao Mediterrâneo, apenas na faixa sul dos países escandinavos o aumento deste défice de pressão não é tão histórico.

Impacto nas culturas

"O VPD é particularmente importante para a agricultura porque quanto mais elevado for, maior será a prpcura da de água das culturas. É necessário mais rega e o rendimento tende a diminuir", afirma Treydte. Isso é o que tem acontecido em muitas regiões europeias, como as espanholas, pelo menos desde 2015. Este ano, juntamente com 2003 e 2018, registou as maiores anomalias no VPD nos últimos 400 anos, exceto em 1709.

Com este défice de humidade disponível no ar, desencadeia-se um processo complexo com consequências potencialmente catastróficas. Não são tempos normais e, se o ambiente ficar mais seco, os estomas fecham para evitar uma transpiração excessiva. Isso interrompe a fotossíntese e toda a troca de gases. As plantas ficam secas e, se a secura ambiental persistir, a sua sobrevivência pode estar em perigo. No campo, isso pode ser combatido com irrigação, se houver água. Mas na natureza, não há salva-vidas.

"Independentemente da disponibilidade de humidade do solo, em casos extremos, pode acontecer que ainda haja água suficiente no solo para as plantas. No entanto, a procura de água da atmosfera, ou seja, o VPD, puxa com tanta força o sistema de transporte hídrico das plantas que estas podem colapsar", explica a investigadora.

El aire de Europa es el más seco de los últimos 400 años (pág 25) | MIGUEL ÁNGEL CRIADO | El País (28/12/2023)

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Festival de Jardins de Ponte de Lima 2022



Mais um ano, mais uma visita ao Festival Internacional de Jardins de Ponte de Lima. Foi no final de Junho que por lá passei, fazia tempo fresco e cinzento o que nem sempre favorece as  fotografias. O tema desta ano é "Os jardins e as alterações climáticas".  

Cá fica uma visita aos onze jardins a concurso.


1 - SEJA AMIGO DO CLIMA E DA ABELHA SELVAGEM

Embora existam mais de 680 espécies diferentes de abelhas selvagens, a abelha, com a sua única espécie, tem colónias muito maiores.

Isto porque são encorajadas e protegidas de doenças pelo apicultor. Por sua vez, provoca uma pressão altamente competitiva sobre a abelha selvagem. Além disso, a abelha selvagem tem de lutar muito com as monoculturas da agricultura e o consequente uso de pesticidas. As abelhas selvagens preferem uma grande diversidade de flores diferentes

O efeito da monocultura e dos pesticidas e da cultura mista

Embora existam mais de 680 espécies diferentes de abelhas selvagens, a abelha, com a sua única espécie, tem colónias muito maiores.

Isto porque são encorajadas e protegidas de doenças pelo apicultor. Por sua vez, provoca uma pressão altamente competitiva sobre a abelha selvagem. Além disso, a abelha selvagem tem de lutar muito com as monoculturas da agricultura e o consequente uso de pesticidas. As abelhas selvagens preferem uma grande diversidade de flores diferentes.


A diferença entre abelhas selvagens e abelhas melíferas.

Toda a gente conhece a abelha de mel e adora-a pelo ouro líquido chamado mel que apresenta nas nossas mesas. Apenas algumas pessoas conhecem a abelha selvagem, ou sabem do seu imenso valor para a nossa sobrevivência. A abelha selvagem não produz mel e, no entanto, contribui para as nossas mesas ricamente preenchidas.

O impacto das alterações climáticas sobre a abelha selvagem.

Com o aumento das temperaturas, causado pelas alterações climáticas, a abelha selvagem também tem de migrar. Os habitats naturais da abelha selvagem já não são habitáveis, pelo que a abelha selvagem tem de procurar novos habitats em áreas mais altas, tais como as montanhas. Mas, mesmo aí, os habitats estão a tornar-se cada vez menos e mais estreitos.

Os diferentes tipos de nidificação da abelha selvagem

Algumas abelhas selvagens preferem fazer o seu ninho acima do solo; outras preferem o seu ninho debaixo do solo. Os ninhos subterrâneos parecem um labirinto; as abelhas selvagens escavam os seus túneis no solo arenoso onde depois depositam os ovos. Espécies que fazem o seu ninho acima do solo utilizam cascas de caracóis vazias ou caules ocos de plantas e postes e bambu para depositar os seus ovos.






2 - ÁGUA DA VIDA

A água é a base do equilíbrio biológico do nosso planeta e todos os seres humanos, plantas e animais precisam dela para viver e funcionar. As plantas consomem muito mais água do que os seres humanos e os animais.

O nosso projeto chama-se “Água da Vida”, que em inglês significa “Water of Life”.

As alterações climáticas estão a causar uma crescente perda de água, mas muitos de nós mal ouvimos falar dela. As pessoas desconhecem o valor dos recursos de água potável, por isso desperdiçam-nos a toda a hora e inconscientemente.

O que é que isso implica? O estado do clima está a piorar de dia para dia e é isto que o nosso projeto aborda. As formas em espiral, que são uma parte importante do nosso trabalho, simbolizam a procura de água em diferentes zonas vegetais: desde o clima seco, o deserto, até ao húmido e tropical. À medida que as plantas mudam, o substrato muda. Esta forma também tem um significado de estrada sem retorno. Se as pessoas não se tornarem conscientes, as mudanças no nosso planeta serão irreversíveis. Assim, comecemos a descobrir como aumentar as possibilidades de melhorar a situação. Podemos poupar mais água, o que, por sua vez, ajudará o nosso planeta, toda a natureza e também nós.

Se quiser ver como pode ser o nosso mundo, se cuidarmos do planeta e começarmos a tratá-lo como a nossa casa, convidamo-lo a visitar o jardim.





3 - REVITALIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO MINHOTO - EXEMPLOS DE UMA ARQUITETURA SUSTENTÁVEL  (PORTUGAL)

Atendendo ao tema “Alterações Climáticas”, com este projeto reconhecemos a importância do bom planeamento urbano e da necessidade da construção se adaptar à circunstância natural do território para que possamos reduzir o seu impacto. Tendo em consideração as consequências das intervenções humanas à escala local e as repercussões desse mesmo impacto à escala mundial, a preservação dos ecossistemas presentes e a defesa da biodiversidade revela-se essencial. Defender a presença de vegetação no desenho urbano surge como estratégia para mitigar as alterações ambientais e promover um futuro resiliente. A água como fonte essencial à vida surge como recurso primário. Com este projeto pretendemos valorizar um conhecimento secular presente no património hidráulico da região do Minho. Inspirando-nos na rede de estruturas hidráulicas que desde as cotas altas até às cotas baixas das serras caracterizam as nossas paisagens, pretendemos valorizar, qualificar e reativar uma rede pré-existente associando-lhe um novo uso.

A criação de pequenos jardins ao longo destes percursos torna-se um meio para reativar a rede hidráulica, convertendo o seu envolvente em espaços renovados e com vida.

Apoiando-nos na rede hidráulica pré-existente, para abastecimento de tanques ou reservatórios, através de levadas ou regos, propomos a criação de micro-sistemas para usufruto público cuja reutilização promova a salvaguarda deste mesmo património construído. Através da preservação deste património identificamos a salvaguarda de valores materiais e imateriais, fontes de conhecimento construtivo e de um saber ligado à tradição. Valorizando a identidade cultural dos lugares, distinguimos que a presença destas construções centenárias se revela um meio para educar e re-interpretar novos usos, transportando os visitantes para outros tempos num vínculo com a história do lugar.






4 - JARDIM DESMORONADO

Aqui jaz O Jardim Desmoronado. Este é um lugar único onde se pode testemunhar a História. Quando se atravessa o limiar, pode-se ver uma vegetação luxuriante. Cruzando-a e olhando à sua volta, admira-se a beleza da natureza primitiva. Mas o que é?! De repente, a vegetação está a desbastar-se. A exuberância do jardim está a desaparecer e a construção está a crescer no seu lugar. A estrutura do edifício estará a retirar o lugar da flora? Então, apercebe-se que está de facto no jardim desolado.

Agora, está rodeado apenas por areia e estrutura de edifícios. Olhe em direção ao fundo. Pode ver o que deixou para trás. Hoje, as pessoas estão muito mais preocupadas com a criação de novas maravilhas arquitetónicas do que com o cuidado dos jardins. Nós, humanos, muitas vezes não prestamos atenção ao ambiente. Só a criação de novos conjuntos habitacionais, que muitas vezes são construídos de forma insustentável, importa. Muitas vezes não prestamos atenção ao facto de o processo de construção ser ecológico e à forma como afeta as alterações climáticas. Quando nos instalamos em novas áreas, frequentemente destruímos belos lugares verdes em vez de os construirmos entre eles e os unificarmos com a natureza.

O banco instalado na árvore é um lugar onde se pode olhar livremente para o passado da natureza. Naquela época, a vegetação estava na natureza. Presentemente, destruímos esta vegetação selvagem em favor do desenvolvimento progressivo da indústria da construção. Se hoje cuidarmos do desenvolvimento sustentável, nunca seremos obrigados a olhar para o ambiente da perspetiva desta bancada.

Vegetação - A desflorestação em grande escala não só torna o ambiente cada vez mais pobre e menos vegetativo, como também causa mais dióxido de carbono no ar, o que afeta a progressiva mudança climática. Estima-se que 12-15 milhões de hectares de área florestal são explorados todos os anos. Pode dizer-se que a cada minuto são cortados 36 campos de futebol. Este corte dos pulmões da terra pode levar-nos a viver num verdadeiro deserto de betão.

A Superfície - caminhando pelo Jardim Desmoronado, pode-se ver o desbaste da relva verde. Está a transformar-se lentamente em solo e areia seca. Isto mostra a degradação progressiva da terra. As pessoas precisam de mais betão, e não de verde. Precisam de estradas, não de florestas. Precisam de estacionamentos, não de parques. Precisam de cinzento em vez de verde?




5 - JARDIM MUTANTE

"Jardim Mutante" representa as alterações climáticas como um caminho, convidando o visitante a experienciar as sensações provocadas pela alteração de cor. É um percurso que envolve o espectador, através de uma exposição participativa que muda de cor e de forma.

A experiência consiste num percurso de paredes coloridas, formadas por fios que pretendem representar as temperaturas médias registadas no globo nos últimos 100 anos. Ao longo do percurso, pode passar-se pelas temperaturas baixas, representadas pelos tons de azul, e experienciar a mudança para os tons amarelos e vermelhos, que relatam as temperaturas altas.

O túnel é constituído por vários triângulos, que representam a força das tríades, como início, meio e fim; o corpo, mente e espírito; o homem, a mulher e a criança, que sofrem alterações ou mutações na sua forma essencial. A deformação pretende representar as consequências das alterações climáticas na vida de cada um.

A instalação é formada por uma estrutura em ferro, complementado com fio e corda de diferentes cores, que formam as paredes do túnel.

O desenho dos pavimentos reflete as deformações da estrutura e acompanha a sombra criada pela mesma.


O uso das plantas pretende demonstrar o contraste climático nas várias regiões do mundo, onde há locais cada vez mais secos e a sofrer de escassez de recursos, e outros onde o nível da água sobe dramaticamente, representando assim o contraste e desequilíbrio provocado pelas alterações climáticas.

Como uma mutação que pode, e deve, ser reversível, há a possibilidade de voltar e fazer o caminho oposto, representando simbolicamente a toma de atitudes que travem o aquecimento global. O visitante pode percorrer o caminho e sair, analisando apenas as mutações de cor desde fora, de forma passiva ou de facto iniciar o caminho inverso e voltar atrás. Sendo que esta atitude simbolicamente representa o pouco que cada um de nós pode, e deve, realmente fazer pelo planeta.






6 - JARDIM POLINIZADOR

O ‘Jardim Polinizador’ propõe a criação de uma intervenção estética, ecológica e educativa. Os polinizadores desempenham um papel vital na reprodução das plantas, tornando-os fundamentais para o suporte dos ecossistemas. Os humanos também dependem dos polinizadores para sobreviver, pois dependem das plantas como fonte de alimento ou medicamento.

As mudanças climáticas impactam os polinizadores, alterando as estações de crescimento e floração das plantas e enfraquecendo as suas populações.

Plantar um jardim polinizador é por isso uma das melhores maneiras de atrair espécies de polinizadores, oferecendo igualmente alimento e abrigo a outros animais e assim estimular e preservar a biodiversidade.

Construção

A parcela é uma explosão de cores e texturas, conseguida principalmente através da plantação de plantas vivazes e anuais.

Um pequeno caminho convida à deambulação pelo espaço, contemplando as plantações, as estruturas construídas e, se atentos, abelhas ou borboletas.


Estruturas construídas

O jardim será pontuado por painéis recortados pela silhueta de alguns polinizadores tais como abelhas, borboletas, gorgulhos ou escaravelhos.

A escolha da silhueta como meio de representação pretende indicar o carácter volátil e frágil das populações de polinizadores que vêm desaparecendo ao longo do tempo.

Ao centro, escondido na explosão de flores coloridas, um único painel com a silhueta de uma mulher e um homem. Este painel representativo do Homem relembra-nos que também fazemos parte do ecossistema e que também nós estamos em perigo.

A estrutura central com 3 círculos concêntricos sobre o jardim lembra-nos que fazemos parte de um todo neste grande ecossistema que une todos os seres vivos que é o Planeta Terra.







7 - À BEIRA DO AMANHÃ

A conceção do jardim À Beira do Amanhã destina-se principalmente a chamar a atenção para a situação atual e para a necessidade de mudanças rápidas no estilo de vida da maioria da população humana. No âmbito do jardim, os autores chamam a atenção tanto para a frágil estabilidade dos ecossistemas atuais como para o facto de que mesmo estes ecossistemas têm os seus limites irreversíveis. A secção central apresenta a Mãe Natureza estilizada, para a qual uma catástrofe lenta mas segura se impõe devido às atividades humanas. Estilizada neste caso pela força de esmagamento de colunas já derrubadas - ecossistemas danificados, retidos apenas pela força de vontade, ou um último fio se quiser, e, no entanto, apesar dos avisos claros dos últimos anos (tais como eventos meteorológicos extremos) os humanos continuam a destruir mesmo as últimas defesas do nosso planeta. A segunda parte do jardim retrata o impacto humano ou as consequências das alterações climáticas, escolhidas por estes autores.

Se olharmos para o problema das alterações climáticas de baixo para cima, ou seja, se olharmos para trás no tempo, podemos perceber o tempo imparável que acabou de ser mencionado como outra ideia principal do jardim. Os impactos humanos individuais no planeta são considerados na sequência cronológica do TEMPO rotativo (sentido horário) em torno da nossa Mãe Natureza.

Uma coisa é certa, o planeta acabará por lidar com as mudanças, mas as PESSOAS irão também conseguir lidar?





9 - O JARDIM DA EVOLUÇÃO

O Jardim da Evolução mostra como a evolução das plantas e das terras estão ligadas às constantes mudanças climáticas.

A história da evolução das plantas e das alterações climáticas começa para o visitante na era siluriana com o Jardim dos Fungos. Esta era foi dominada pelos Prototaxitas, fungos gigantes até 8m de altura representados no jardim por esculturas em contraplacado. Os Prototaxitas estabeleceram a atmosfera respirável na Terra. As plantas terrestres ainda eram simples e tinham apenas 1m de altura representadas pelas plantações de Cavalinha.

A secção seguinte do jardim mostra a era carbonífera e Gimnospérmica. Os Gimnospérmicos são perenes ou lenhosos, formando árvores ou arbustos que não produzem flores, apenas sementes. Isto é mostrado, por exemplo, pelas Cicadáceas. Este era o tempo dos dinossauros, quando as árvores cresciam até 50m de altura. As plantas tornaram-se tão grandes e prolíficas que reduziram significativamente o dióxido de carbono atmosférico, arrefecendo a atmosfera terrestre.

Este arrefecimento permitiu o aparecimento de Angiospermas ou plantas florais, tais como Magnólias, durante a Era Cretácea. Esta é a próxima secção em que o visitante se encontrará. O aparecimento das Angiospermas é uma das mudanças mais importantes na história da biosfera da nossa Terra. O segredo das flores era explorar a mudança no solo, que se tornou rico em carbono e fértil. As plantas floríferas dominavam agora a terra e suportavam uma vasta biodiversidade.

A Era Holocénica é representada pela quarta área do jardim. Esta era viu as gramíneas proliferarem. As que têm sementes nutritivas, como o trigo, são cultivadas por humanos. Isto requer perturbações repetitivas e não naturais como o cultivo, o pastoreio pesado, a queima, ou o corte de relva. Existem agora provas globais esmagadoras de que os processos atmosféricos, geológicos, hidrológicos, biosféricos e outros processos do sistema terrestre estão a ser rapidamente alterados por esta atividade humana.

O Jardim da Evolução mostra que as plantas se adaptaram ao longo da história da Terra por terem tido períodos de tempo geologicamente longos para o fazer. A questão que o jardim coloca é se as plantas e mesmo os animais serão capazes de se adaptar ao ritmo da mudança climática gerada pelo Homem.

O visitante termina a sua viagem através do Jardim da Evolução de volta ao Reino dos Fungos que existia muito antes dos Reinos das Plantas e dos Animais e que pode muito bem existir muito depois.






10 - JARDIM DA REFLEXÃO



Com o surgimento do ser humano, o planeta Terra viu como suas qualidades ambientais foram modificadas. Muitas das espécies do reino animal desapareceram por completo ou sua presença foi reduzida, de forma que a cadeia trófica foi alterada, com as repercussões catastróficas que esse facto causou.

O mesmo aconteceu com algumas espécies de plantas. A extensão das operações agrícolas, o comércio de plantas ornamentais não nativas, a poluição, a falta de chuvas ou o aquecimento das temperaturas são facto que causaram a perda de algumas espécies de plantas ou ainda ameaçam o desaparecimento de outras.

Estima-se que, nos últimos 250 anos, 580 espécies de plantas desapareceram. As nossas ações são as que causaram este extermínio?

O projeto

O visitante entra neste espaço por uma estrutura semifechada que serve de memorial a todas as plantas desaparecidas ou ameaçadas de extinção. Este espaço também tenta transmitir todos os efeitos negativos das mudanças climáticas: aumento da temperatura, escuridão e desolação.

À medida que avançamos neste percurso, a estrutura vai se abrindo, até chegarmos a um espaço ao ar livre onde a vegetação envolve o visitante. Queremos aqui mostrar que apesar de a pegada do ser humano ter provocado a extinção de algumas espécies, ainda há tempo de repensar.


Esse espaço tem o intuito de contrastar-se com o anterior, de modo a fazer com que passar por ali valorize as espécies que ainda existem. Além do mais, é proposto criar um ecossistema, com diferentes espécies de vegetações.

Este caminho continua a sua jornada até chegar a um espelho d’água, que possui duplo sentido. Ao mesmo tempo que simula o perigo de elevação do nível dos nossos oceanos, ele representa uma peça chave para o funcionamento do ecossistema.

O final deste percurso coincide com a entrada no mesmo, e é aqui que o espectador deve fazer este exercício de reflexão depois deste sabor agridoce que a visita deixou.







11 - CONVÍVIO

O jardim é um espelho que reflete as alterações climáticas, a biodiversidade e a sustentabilidade.

“Convívio”, a ideia de projeto que pretende valorizar os espaços de encontro, diálogo, troca e amizade.

A circunferência do “O” recorda o planeta, mas é também um símbolo de união, um valor que temos de redescobrir para superar o grande desafio que as alterações climáticas representam. No “O” encontra-se uma ave, símbolo de uma reconciliação entre o Homem e a natureza.

O projeto está estruturado em três áreas, que dialogam umas com as outras.

A primeira área mostra a visão do futuro com as condições climáticas atuais, denunciando a poluição a que o ambiente está sujeito. No final do caminho é colocado um espelho no qual é relatada a frase: “Queres mesmo viver este futuro?”

Aqui encontramos a oliveira, sujeita ao risco de deixar de ser uma espécie mediterrânica.


A segunda área fornece alimentos para reflexão sobre as medidas a serem implementadas para proteger o ambiente, mas também sobre como a natureza é realmente capaz de nos dar muito do que precisamos.

A esfera metálica representa o clima atual.

A terceira área representa a visão do jardim idílico, onde graças ao comportamento correto do Homem será possível uma reconciliação com a natureza. Os elementos que representam esta aproximação são representados por um tabuleiro de xadrez alternando entre essências florais e “espelhos”, que refletirão o paraíso, também este, símbolo da necessidade de reconectar à criação. O outro elemento é representado por uma esfera coberta de flores e um caminho de água que corre para uma piscina onde os lírios-dos-charcos irão flutuar.

O corredor de saída, será feito com troncos de árvores a partir da recuperação.








12 - CADA PASSO DADO

Decisões e Consequências

As alterações climáticas chegaram inegavelmente ao nosso meio. Já sentimos os efeitos na nossa vida quotidiana. Os níveis do mar a subir, o recuo global dos glaciares, os incêndios devastadores e os eventos de precipitação mais frequentes e graves. Os impactos na vida selvagem, nas plantas e na nossa sociedade são visíveis em todo o mundo.

As alterações climáticas são provocadas pelo homem!

Consequencialmente, as alterações climáticas baseiam-se nas nossas decisões e temos de enfrentar as consequências.

O nosso conceito para o 17.º Festival Internacional de Jardins em Ponte de Lima é tornar visíveis essas decisões da vida quotidiana e mostrar as suas consequências.

O Nosso Futuro Começa Agora

O nosso jardim está separado em duas “salas”. A primeira sala representa a presença. À medida que entra, é confrontado com várias decisões de vida quotidianas e as suas escolhas guiá-lo-ão através do jardim. Em breve, ficará em frente a uma parede. À esquerda e à direita, encontrará pequenas janelas que lhe permitirão vislumbrar o futuro. De acordo com a sua via de decisão, verá um cenário de “Melhor Cenário” ou de “Pior Cenário” e as consequências das suas decisões.