A segunda parte do artigo do Diário de Notícias, publicado no dia 16 de outubro de 2025
terça-feira, 4 de novembro de 2025
A Linguagem das Flores na Cultura Chinesa II
sexta-feira, 10 de outubro de 2025
A Linguagem das Flores na Cultura Chinesa
"Da resiliência simbolizada pela ameixeira à riqueza e prosperidade da peónia, passando pela nobreza da orquídea e pela longevidade do crisântemo, cada flor é como uma janela que permite entrever a forma como os chineses encaram a natureza e a vida. Nesta edição, vamos conhecer quatro flores emblemáticas da China e o seu significado cultural.
A ameixeira é originária da China e as suas flores são das mais célebres do país. No rigor do inverno, quando a maioria das plantas já se encontra murcha, a ameixeira continua a florescer. Os chineses apreciam profundamente esta qualidade natural de “não temer o frio”, atribuindo-lhe o valor simbólico de resiliência e coragem. Além disso, por ter cinco pétalas, é conhecida desde a dinastia Song (960–1279) como a “flor das cinco felicidades”, representando sorte, prosperidade, longevidade, alegria e riqueza. O motivo da ameixeira tornou-se naturalmente um dos padrões auspiciosos da tradição chinesa, sendo amplamente utilizado em porcelanas e vestuário. Durante as dinastias Ming e Qing (1368–1912), foi um dos mais populares, muitas vezes combinado com elementos como a pega-rabuda para formar composições de bom augúrio.
A peónia, considerada a “rainha das flores”, também é originária da China, onde é cultivada há mais de 1500 anos. Inicialmente usada como planta medicinal, a sua raiz (designada por danpi) tem propriedades de redução da febre, alívio da dor e ação refrescante. O imperador Taizong da dinastia Tang (599–649) apreciava particularmente a exuberância da peónia e proclamou-a “flor nacional”. Naquela época, apenas a família imperial e a nobreza podiam cultivá-la, razão pela qual a peónia se foi tornando um símbolo de estatuto social e prosperidade, um significado que se mantém até hoje. Tal como o trevo-de-quatro-folhas simboliza a sorte nas culturas ocidentais, na China a peónia é também associada à boa sorte, pelo que muitas famílias chinesas gostam de colocar em casa quadros ou objetos decorativos com este motivo, acreditando que atraem boa fortuna.
O crisântemo é a flor mais representativa do outono e apresenta uma grande diversidade de formas: alguns lembram pompons, outros parecem cascatas. É frequentemente utilizado para preparar chás medicinais, aos quais se atribui a capacidade de retardar o envelhecimento. No festival tradicional chinês Chongyang (nono dia do nono mês lunar, também conhecido como “Dia dos Idosos”), apreciar flores e beber vinho de crisântemo são costumes importantes. Por isso, esta flor está associada ao desejo de longevidade. O poeta Tao Yuanming (c.365–427), da dinastia Jin do Leste, tornou-se célebre pelo seu amor aos crisântemos, que assim ganharam o simbolismo do “eremita”, representando uma vida desprendida da fama e da riqueza, e uma conduta nobre e independente. No Ocidente, os crisântemos são muitas vezes usados em contextos de luto e, com o intercâmbio entre culturas, os chineses também passaram a utilizar o crisântemo para expressar a sua saudade e pesar pelos falecidos.
Quanto à orquídea, na cultura chinesa, esta simboliza a elegância e a pureza. Crescendo geralmente em vales recônditos, as suas folhas são longas e finas, as suas pétalas pequenas e a sua fragrância duradoura, características que a tornam muito apreciada. Ao longo dos séculos, os literatos chineses nutriram grande admiração pela orquídea, considerando-a símbolo de virtude e modéstia, razão pela qual a designaram como “flor do homem virtuoso”, expressão que na tradição cultural chinesa se refere a um indivíduo com alta integridade moral. Era comum que os eruditos mantivessem orquídeas nos seus escritórios, não apenas para embelezar o espaço, mas também para, através da sua fragrância, serenarem o espírito e se inspirarem para a escrita. Atualmente os chineses continuam a gostar de cultivar orquídeas em casa.
Muito apreciadas pelos chineses, a flor da ameixeira, a peónia, o crisântemo e a orquídea são belas, perfumadas e distintas entre si, constituindo ornamentos indispensáveis nas festividades tradicionais da China. As qualidades que representam – resiliência, prosperidade, nobreza e elegância – sempre foram estimadas pelos chineses, que têm retratado e enaltecido estas flores ao longo de milénios por meio da poesia, da pintura, da porcelana, do bordado e de outras formas artísticas e literárias. Hoje, destacam-se como importantes emblemas e símbolos da cultura chinesa.
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quinta-feira, 10 de abril de 2025
Notícias de Árvores pelo Mundo (5) - Guardiães de Árvores Ancestrais
Enquanto em Portugal ficamos escandalizados com os abates de árvores que estão na ordem do dia, nomeadamente em Lisboa e Póvoa de Varzim, na China ficamos a saber dos esforços que estão a desenvolver para salvar árvores com mais de quatro mil anos.
“Os desafios foram imensos,” disse Jin. Séculos de entulho de construções e pedestais de pedra enterrados tinham sufocado as raízes da árvore. Os trabalhadores removeram toneladas de pedras, substituíram o solo por material rico em nutrientes, e instalaram sistemas de drenagem e arejamento - um processo laborioso que exigiu atenção minuciosa.
“A conservação não é uma solução única. As árvores são seres vivos, precisam de cuidados constantes,” afirmou.
UM IMPERADOR IMPRESSIONADO
Séculos mais tarde, em 1750, o Imperador Qianlong da Dinastia Qing (1644–1911) criou a sua célebre pintura a tinta Cipreste da Dinastia Han em Songyang, que foi vendida por mais de 87 milhões de yuans (12 milhões de dólares) num leilão em 2010.
Embora as autoridades locais tenham começado a proteger árvores antigas já em 1936 - quando o então magistrado Mao Rucai as numerou e instalou placas de esmalte — a campanha de 2004 marcou o primeiro grande investimento de Dengfeng no património arbóreo.
Fortalecido pela formação do professor, Jin expandiu o seu trabalho de conservação. Em 2008, liderava a proteção de 878 árvores antigas nos oito locais históricos do Centro do Céu e da Terra, em preparação para a candidatura à Lista do Património Mundial da UNESCO. O centro foi inscrito na lista da UNESCO em 2010.
Com prazos apertados e algumas árvores em terrenos montanhosos remotos, Jin e a sua equipa carregavam equipamento pelas colinas, acampavam no local e passavam noites em tendas destruídas pela chuva intensa.
No Templo Zhongyue da Montanha Songshan, onde existem mais de 330 ciprestes antigos, Jin enfrentou falta de trabalhadores. Mesmo com febre, recrutou 50 operários, formou-os pessoalmente e subia repetidamente aos andaimes para demonstrar as técnicas de conservação. Trabalhava durante o dia e recebia soro intravenoso à noite.
Ao caminhar entre os ciprestes, a voz de Jin suaviza ao recordar o barro seco, “duro como pedra”. “Não podíamos usar máquinas perto das raízes,” explicou, descrevendo o esforço manual para escavar trincheiras de rejuvenescimento. “Dois trabalhadores levavam um dia inteiro para escavar um metro.”
Durante um Festival da Primavera, viu três turistas prestes a queimar incenso junto a um cipreste antigo para pedir sorte. Convenceu-os dizendo: “A melhor forma de venerar as árvores antigas é regá-las na estação seca.”
Jin explicou que, em ambientes tão severos, os ciprestes crescem muito lentamente.
Devido à imprecisão dos métodos antigos de datação, algumas árvores que se pensava terem 1.000 anos podem na realidade ter mais de 3.000 ou até 4.000 anos, disse.
“A arquitetura ancestral valorizava o ambiente natural e o feng shui, por isso os templos eram frequentemente construídos onde já existiam árvores antigas. Muitas das árvores do Templo Zhongyue são provavelmente muito mais antigas do que se pensa,” disse.
Em 2024, os 20 anos de dedicação de Jin à conservação valeram-lhe um lugar no painel de especialistas da Administração Nacional de Florestas e Pastagens. Já cuidou de mais de 20.000 árvores antigas em todo o país, desde as planícies secas de Shanxi até aos subtrópicos húmidos de Fujian.
O seu telefone é como uma linha direta de emergência: quando recebe um pedido, parte imediatamente para ajudar a restaurar árvores antigas.
Jin vê a preservação de árvores como uma ciência multidisciplinar. Além do tratamento contra a erosão e reforços estruturais em troncos ocos, destaca a importância da gestão do micro-habitat: cercas respiráveis para evitar compactação do solo, flores anuais para aumentar a biodiversidade e a proibição de ervas invasoras que sufocam as raízes.
“No norte, o foco é hidratação e arejamento. No sul, a drenagem é essencial,” disse. “Mas o cuidado constante - regar com critério e soltar o solo - é indispensável.”
Jin insiste na sensibilização do público sobre o cuidado com as árvores, para minimizar o impacto humano.
“Enquanto as pessoas não danificarem os troncos ou raízes, o respeito pelas árvores — seja através de rituais ou culto — é uma tradição sagrada que merece ser respeitada,” disse.
VELHO CRESCIMENTO, NOVA RIQUEZA
O veterano arborista aprendeu muito sobre árvores e a sua importância cultural com as populações locais. “Ao ouvir as histórias dos aldeões, aprendo a proteger estes gigantes em harmonia com os ecossistemas locais,” afirmou.
Há alguns anos, Jin visitou a aldeia de Leijiagou, perto do Templo Shaolin, para proteger vários carvalhos antigos (Quercus baronii) que cresciam em fendas nas encostas rochosas. Havia um pequeno templo de pedra da época do Imperador Qianlong da Dinastia Qing debaixo das árvores.
Um pastor com mais de 80 anos disse a Jin que se lembrava das árvores desde criança. O seu estado atual deteriorado devia-se provavelmente à erosão do solo junto às raízes, disse ele.
Quando uma ovelha se aproximou de uma das árvores, o pastor afastou-a rapidamente e disse: “A árvore velha é sagrada. Não deixo que as ovelhas se aproximem dela, nem sequer comam as folhas caídas.”
Leijiagou, aos pés da Montanha Songshan (considerada sagrada), tem mais de 10 árvores antigas, incluindo carvalhos, árvores sala e choupos de folhas grandes.
Desde 2015, a aldeia deixou a exploração de pedra e dedicou-se à restauração ecológica, oferecendo alojamento para visitantes. Criou um parque ecológico para os carvalhos, expandiu uma lagoa para o Lago Espelho do Coração e transformou grutas antigas em hospedagens de charme. Hoje é uma aldeia modelo na cidade de Zhengzhou e uma vila florestal nacional.
“Estas árvores são os nossos historiadores e a principal atração,” disse Liu Xiaohui, 33 anos, membro do comité da aldeia e dono da quinta eólica de Songshan.
A aldeia recebe agora mais de 100.000 turistas por ano, atraídos pelo Templo Shaolin e pela beleza natural. “O museu de história da aldeia que está a ser construído destacará o papel das árvores no património local e atrairá mais visitantes para conhecerem a profunda cultura da Montanha Songshan,” disse Liu.
Em janeiro, funcionários do Departamento Florestal da Província de Henan visitaram Leijiagou e captaram imagens digitais 3D das árvores antigas, para criar um museu digital piloto em nuvem.
UMA VERDADEIRA ÁRVORE GENEALÓGICA
Aldeias e templos também preservam árvores Huai (ou árvores dos eruditos chineses), plantadas por migrantes da Dinastia Ming (1368-1644) oriundos do condado de Hongtong, na província de Shanxi, disse Zhao Xiaoli, diretor do Centro de Arborização de Dengfeng.
A árvore dos eruditos é considerada um símbolo das raízes ancestrais e um marco da história de uma região.
Uma dessas árvores encontra-se na aldeia de Yuanqiao, a 10 quilómetros a sudoeste de Dengfeng. Com mais de 500 anos, atinge 14 metros de altura e tem uma copa de 80 metros quadrados. Registos históricos mostram que Yuanqiao foi fundada durante o reinado do Imperador Hongwu (1368-1398) da Dinastia Ming, por Yuan Kecheng, que teve nove filhos e plantou nove árvores dos eruditos para lembrar aos descendentes as suas origens em Shanxi.
A única árvore sobrevivente está próxima de uma pequen
a ponte construída pela família Yuan, de onde vem o nome da aldeia. Quase todas as famílias da aldeia têm o apelido Yuan.
O legado da árvore está ligado também à filantropia.
Yuan Zhanguo, 73 anos, presidente do Grupo Dengcao e natural da aldeia, escreveu que se lembra dos rituais de infância para honrar a árvore como uma “divindade guardiã”.
A casa da sua infância, em frente à árvore, alberga agora a primeira estação de caridade a nível de aldeia da província de Henan, fundada em 2015 por Yuan Zhanguo e os seus dois irmãos.
A estação fornece apoios mensais de 300 a 1.000 yuans a idosos e apoia bolsas de estudo. “Os meus pais já nem aceitam dinheiro meu, a estação cuida deles,” disse Yuan Jinyi, responsável local de 55 anos.
Mas o património de Yuanqiao vai muito além da árvore.
Um sítio neolítico com 6.000 anos, casas senhoriais com 300 anos e uma torre fortificada com 440 anos coexistem com locais de “Cultura Vermelha”, como a sede do primeiro Congresso do Partido Comunista da China em Dengfeng.
Em 2017, os irmãos Yuan fundaram a Companhia de Conservação da Aldeia Antiga de Yuanqiao. Investiram 300 milhões de yuans na restauração de edifícios antigos, melhoria ambiental e criação de museus, alojamentos turísticos e pensões rurais únicas.
Yuanqiao foi reconhecida como Zona Turística Nacional de Classe 3A e aldeia tradicional em 2022, recebendo mais de 1 milhão de visitantes por ano. “Proteger e herdar a cultura histórica de Yuanqiao é o nosso maior desejo,” escreveu Yuan Zhanxin, irmão de Yuan Zhanguo, no livro de 2023 A História de Yuanqiao. “Isto não é um projeto lucrativo rápido, mas um legado que beneficiará gerações durante séculos,” escreveu.
TESOUROS RURAIS
A 25 de janeiro, o Conselho de Estado da China aprovou os Regulamentos sobre a Proteção de Árvores Antigas e Notáveis, em vigor desde 15 de março. A política visa salvaguardar estes tesouros naturais, integrar o seu valor cultural em festividades e vilas históricas, e impulsionar o ecoturismo — uma visão já concretizada em Leijiagou e Yuanqiao.
Contudo, os tesouros rurais de Dengfeng ainda têm potencial por explorar.
A cidade de Donghua foi um centro comercial na Dinastia Qin (221–206 a.C.) e situa-se entre as Montanhas Funiu e o rio Yinghe, o maior afluente do rio Huaihe.
Hoje, a localidade abriga 84 árvores antigas e uma dúzia de patrimónios históricos, como o túmulo de Xu You (sábio com mais de 4.000 anos), o sítio do Forno Cheng (reliquias neolíticas e da Idade do Bronze), e esculturas do templo da aldeia Zhouzhuang.
Este último contém sete estelas de pedra das dinastias Ming e Qing que descrevem as ampliações do Templo Zhuyuan, de influências budistas e taoístas, e a sua forte ligação ao Templo Shaolin. Uma árvore dos eruditos com mais de 500 anos encontra-se nas proximidades.
Zhouzhuang combina o templo com bosques de bambu, torres de vigia antigas, reservatórios, vias férreas e paisagens rurais. Na primavera, as flores de colza e as feiras de templo atraem multidões, enquanto o templo restaurado e as melhorias nas infraestruturas refletem os esforços populares.
Zhang Haoran, 27 anos, secretário do Partido da aldeia e ex-militar, lidera a revitalização rural. Planeia melhorar a gestão de resíduos e transformar casas tradicionais abandonadas perto da árvore dos eruditos em alojamentos de charme.
“A árvore testemunhou o meu crescimento e séculos de história da aldeia. Passava por ela todos os dias em criança,” disse Zhang.
“Já vieram empreendedores ver o terreno para escorregas aquáticos e comboios turísticos. Estamos abertos a investidores que queiram desenvolver projetos de turismo ecológico e cultural — queremos preservar o património e garantir o retorno dos que investem,” concluiu.
China Daily – 9 de abril de 2025 – Por WU YANBO em Dengfeng
quarta-feira, 1 de janeiro de 2025
Os Esforços da China para Preservar o Pavão-Verde
Na China, estas aves habitam exclusivamente a província de Yunnan. O condado de Shuangbai, na prefeitura autónoma Yi de Chuxiong, possui a maior população destas aves.
No mês passado, o número de pavões-verdes monitorados por câmaras de infravermelhos atingiu 430 — mais de sete vezes os 56 registados em 2015, disse Wang Sineng, diretor da Reserva Natural do Rio Dinossauro, em Shuangbai.
"De acordo com os resultados da identificação genética, os pavões-verdes na China não são completamente iguais aos de qualquer outro país", afirmou Wang.
Considerados o protótipo da fénix na tradição chinesa, os pavões-verdes têm exercido uma influência significativa na cultura do país ao longo dos últimos 2.000 anos, segundo o especialista em aves Yang Xiaojun.
"Imagens de pavões-verdes podem ser encontradas em muitas obras literárias e artísticas", disse Yang, que se reformou do Instituto de Zoologia de Kunming, em Yunnan, uma instituição pertencente à Academia Chinesa de Ciências. Por exemplo, "O Pavão Voa para Sudeste" é um famoso poema narrativo longo da Dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.).
"O pavão-comum só foi introduzido na China a partir do Sudeste Asiático na década de 1980 e é agora amplamente visto em jardins zoológicos. No entanto, durante a Dinastia Qing (1644-1911) e antes, a China tinha apenas o pavão-verde, que é uma espécie nativa", explicou Yang.
"Os pavões simbolizam auspiciosidade e nobreza, possuindo um grande significado simbólico na cultura chinesa", afirmou Wang.
Yang acrescentou: "Por isso, há uma razão especial para os chineses protegerem os pavões-verdes. Se desaparecerem, não conseguiremos mais ver a origem da fénix, um símbolo cultural, e isso seria verdadeiramente triste."
China Daily, 31 de dezembro de 2024
Por YAN DONGJIE e LI YINGQING em Chuxiong, Yunnan


